Galeria Diferença
Na "Mesa Para Dois" montada por Leda Cruz à luz de uma preocupação crítica para com a imagem da mulher na sociedade contemporânea apresentam-se conjuntos díspares de objectos, fotografias e pinturas através dos quais se penetra no universo feminino, revisto na dupla faceta de acolhimento e agressividade. Numa sequência de fotografias instantâneas que tomam o corpo da mulher como tema, o rosto mantem-se oculto, enquanto uma mão toca o pescoço, presentifica o ventre ou sublinha um ombro. São também fragmentos de corpos que se encontram em telas brancas onde as silhuetas femininas surgem a par de desenhos de moldes de costuras, num comentário que encontra paralelos na obra de Julião Sarmento. Já os quatro objectos expostos no interior de caixas de vidro transformam alguns ornamentos femininos em perversas formas de agressão sobre a mulher, numa atitude que a instalação O Corpo é o Lugar da Emoção II sublinha de forma evidente.
na Galeria Diferença
Ana Ruivo
CARTAZ - EXPRESSO - 18 de maio de 2002
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Leda Cruz Expõe na Galeria Diferença
Obras de Leda Cruz ocupam espaço da Galeria Diferença, em Lisboa. Para mostrar objectos que simbolizam a partilha e o confronto. Até 15 de Junho.
Intitulada "Mesa Para Dois" esta exposição revela objectos, telas e fotografias que contêm um mundo feito de ironia e crítica social à imagem da mulher na sociedade. Há neste trabalho algo de perturbante e terno que tanto nos pode remeter para a questão da violência domestica como para a afectividade do contexto familiar, Estamos pois perante uma certa intimidade feita de momentos cálidos mas também perante uma violência tensa que ameaça a qualquer momento irromper. Ainda assim é ao espectador que cabe dar um sentido final às peças desta exposição. Porque estas permitem a cada um projectar um olhar e sentido livres de constrangimentos conceptuais. Ou seja, não há imposição, mas antes uma leitura dupla com a qual podemos ser cúmplices.
Até sábado, 15 Junho 2002
Galeria Diferença
Rua S. Filipe Neri, 42, cave
1250-227 Lisboa
Tel: 213 832 193
De terça a sábado, das 15 às 20 horas.
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"... Nesses silêncios solitários, graves,
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério?"
Cárcere das Almas
Cruz e Souza
Quando se olha os objectos que Leda Cruz cria e entretece, logo as emoções nos invadem e se impõem. Artista da inquietação, a sua arte é um produto da sua vivência, do seu jeito muito próprio de estar no mundo, de forma activa e atenta. Da sua arte espera-se (e recebe-se), uma atitude. Mais do que fazer, é o sentido das suas peças, a capacidade de se dar e comunicar com o outro através delas, que conta. Cada objecto, cada desenho, cada foto, remete-nos para um mundo de subtil e fina ironia, de crítica social à imagem da mulher na sociedade, dos enredos complexos nos quais a mulher é envolta e se envolve, em permanente indecisão de si mesma. Tudo isto feito e desenhado com a magia de quem, acima de tudo, tem ternura para dar. Porque estes objectos e imagens sendo provocativos e perturbadores, despertam também a serenidade da contemplação.
Mesa para Dois tem essa representação dupla: a partilha e o confronto. A partilha, pela sugestão duma imagem minimalista que nos remete para o universo do quotidiano, íntimo, cálido. O confronto, pela presença de um objecto de agressividade insinuada (reconhecida). É nesta capacidade de emprestar um duplo reconhecimento aos seus objectos escultóricos e às suas imagens que Leda Cruz revela a sua enorme força criadora, plena de significado, onde se dá lugar ao sonho e à realidade, mas também à liberdade que concede a cada um, de projectar o olhar e os sentidos nas suas obras.
Uma exposição de Leda Cruz é sempre um acontecimento. Pela criatividade e beleza cromática das suas obras, despojadas de artifícios e acessórios; pela comunhão silenciosa, pelo mergulho numa realidade por vezes crua, que nos é sugerida, nunca imposta, que nos permite sempre a leitura dupla, o espanto da inquietude e o sorriso cúmplice.
Tomar lugar nesta Mesa para Dois, e ter o privilégio de saborear o gosto amargo-doce que nos é oferecido, é um convite que nos ata e vincula.
Elisabete Brito
Lisboa, Abril 2002
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A sua formação inicial faz-se em Psicologia, ainda em plenos dias da ditadura militar brasileira, seguindo-se depois a formação em História, "talvez pelo seu lado mais realista e actuante". Colaborando num projecto de investigação para o estudo de temas ligados à presença escrava na Bahia, Leda Cruz viaja depois para Luanda, por motivos pessoais, completando um ciclo vital de entrega aos estudos sobre a África pré-colonial. "Sabe, quando chego em 1984 a Angola descobri um país marcado pelos vestígios de guerra, com todo o aparato militar. Organizei o meu quotidiano numa casa onde apenas dois homens tinham vivido, num quadro típico de cooperação e intenso esforço de adaptação. Cheguei a frequentar a União de Escritores Angolanos e foi aí que conheci Luandino Vieira, por exemplo, um amigo que não revejo há já alguns anos". Leda Cruz fala depois da sua experiência ligada à prática da cerâmica em atelier, desenvolvida ainda em Luanda, onde o barro obedecia a uma crescente vontade de "abstractizar a forma".
A chegada a Portugal possibilita-lhe o primeiro contacto com a escola do AR.CO onde completa a formação em Escultura e o Curso Avançado em Artes Plásticas. Pelo meio ficavam os anos vividos na cidade de Leiria, o contacto com a Galeria Quattro onde expõe desde 1994 e a experiência na tapeçaria desenvolvida com Teresa Pavão. "Depois do barro, interessava-me a experimentação plástica de outros materiais e misturas, o marfim e a terra, por exemplo. A minha decisão de entrega à linguagem da escultura contemporânea acontece sob a orientação de Angela Ferreira. Toda a minha obra está marcada pela noção de corpo, sim. E também pela escrita, como nestes desenhos sobre papel e que agora exponho e nos quais transcrevi alguns fragmentos de Hilda Hilst, Sylvia Plath ou Laurie Anderson, para além dos aforismos cuja forma e conteúdo recomponho e transformo": O Amor (não) Mata.
A leitura visual do trabalho de Leda Cruz implica também a experiência do corpo como receptáculo de imagens culturalmente inscritas. Remete-nos para o princípio da depuração plástica e simbólica operadas entre componentes discursivos e visuais. Assim ocorre desde a realização de um primeiro trabalho que a autora designa por Arquivo e que agora será revisto a propósito da sua próxima exposição a apresentar na Biblioteca da Canning House de Londres entre 18 e 30 de Junho. "À semelhança do trabalho desenvolvido para Entre Paredes, o novo projecto implica a ideia de corpo vazado, o tema da presença e da ausência, os traços plurais ou singulares que nos devolvem a questão da identidade. O Arquivo alcança a altura do peito e é composto por placas de vidro sobrepostas nas quais disponho fotocópias ou desenhos em papel vegetal. Jogo com a nossa memória da ancestralidade através da pintura facial das mulheres índias do pantanal e também de alguns auto-retratos. Interessa-me a ideia de uma perspectiva escultórica, a noção de caixa enquanto receptáculo, talvez como representação da abertura ou fechamento".
Estas exposições integram, assim, um conjunto de objectos escultóricos e desenhos sobre papel que nos conduzem ao universo dos ritos e da identidade feminina como instâncias de encenação metafórica de cores, texturas e matérias. Existem as polaroids utilizadas como extensões do desenho e a sua série de caixas de vidro subordinadas a quatro andamentos possíveis: das Mulheres que Esperam às Mulheres que Morrem, Mulheres que Escapam e Mulheres que Resistem. Um pouco como quem exercita plasticamente o tema da cumplicidade, Leda Cruz acrescenta: "Sabe, eu acho que essa mecha de lã dentro da caixa, por exemplo, pode significar a própria sabedoria de uma sujeição histórica do feminino. Essa consciência cultural das práticas de violência, as violações exercidas sobre a mulher pelos mineiros e madeireiros,na Amazonia, por exemplo. Ou talvez a memória de Cleópatra numa sabedoria subjacente aos nossos gestos do quotidiano; a blusa de arame farpado fala disso, também. E o vermelho na textura envolvente do veludo de lã possui toda a carga visual e sexual que conhecemos".
Depois de Lisboa, outras obras de Leda Cruz viajarão assim, até Inglaterra reavaliando para outros espaços, este e outros imaginários; talvez as mesmas constantes no quotidiano de um outro idioma. E sabemos que a cada olhar, ficará sempre a promessa deixada pelos gestos de invenção de uma mulher que sempre sente, sabe e lembra. Cada corpo e cada objecto podem ser dor, fruto, paixão e arte, ou verdadeira sabedoria do desenraízamento. Talvez porque "o amor, a gente vai fazendo"; como ainda nos diz Leda Cruz, encerrando a conversa com um sorriso. Agora mesmo - e tanto quanto no princípio -, o Verbo e a Mulher nunca se negam à expressão do absoluto.
Revista Humanidades
Mafalda Serrano
Lisboa, 2001
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